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O Mutante Cenário das Ameaças Atuais

Por Thomas Schmidt

ID do Artigo: 3902
2 de junho de 2004
Introdução
O problema das assinaturas
Quatro estratégias promissoras
Um cenário em constante alteração
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Como as novas ameaças se propagam rápido demais para serem detidas por qualquer mecanismo de resposta de segurança, e as ameaças futuras serão tão rápidas que farão o veloz worm Slammer parecer lento, fica óbvia a urgência com que as empresas atuais devem procurar novas maneiras para se proteger.

As estatísticas mostram um cenário desanimador. De acordo com a edição mais recente do Relatório de Ameaças à Segurança na Internet da Symantec, o uso de códigos maliciosos que revelam dados confidenciais aumentou de modo significativo em 2003. Ao mesmo tempo, a Symantec documentou 2.636 novas vulnerabilidades de software no ano passado, uma média de sete por dia.

As ameaças à segurança na Internet não estão apenas aumentando, como também estão cada vez mais velozes ao se propagar pelas redes, dificultando ainda mais a tarefa de se proteger contra elas. Como demonstra o Relatório de Ameaças, o período de tempo entre o anúncio de uma vulnerabilidade e o lançamento de uma exploração a ela associada está cada vez mais curto, aumentando a probabilidade de que veremos, em breve, a tão temida ameaça de “dia zero”. Uma ameaça combinada de dia zero (ou seja, que utiliza diversos métodos e técnicas para se propagar) poderia se direcionar a uma vulnerabilidade antes mesmo que tenha sido anunciada ou de uma correção ter sido lançada para resolvê-la.

Uma análise das ameaças recentes confirma as novas tendências das quais somos testemunhas. Antes das epidemias de worms em agosto de 2003, as explorações eram geralmente lançadas meses (ou até mesmo anos) após o anúncio público de uma vulnerabilidade. Esse período entre o anúncio e a exploração está encurtando rapidamente. No ano passado, o worm Blaster usou uma falha conhecida da Microsoft anunciada apenas 26 dias antes. O recente worm Sasser, que passou a se espalhar globalmente em 1º de maio, explorou uma falha em um componente do sistema operacional Windows para o qual a Microsoft lançou uma correção em 13 de abril.

O problema das assinaturas
A maioria dos sistemas de detecção de intrusões é baseada em assinaturas e não consegue detectar ataques de dia zero. Eles somente conseguem detectar ataques para os quais são programados para reconhecer – ou seja, para os quais eles já têm assinaturas. No caso de ataques de dia zero, as empresas não podem esperar até que assinaturas tenham sido desenvolvidas e instaladas. Embora as empresas de segurança tenham aperfeiçoado seu tempo de resposta, passando de dias ou semanas para apenas algumas horas, a verdade é que os worms mais velozes ainda podem se espalhar antes que empresas de segurança possam se defender.

Considere os seguintes pontos: a ameaça severa Code Red, lançada em meados de 2001, dobrava seu índice de infecção a cada 37 minutos. Menos de dois anos depois, o worm Slammer, lançado em janeiro de 2003, era capaz de dobrar seu índice de infecção a cada 8,5 segundos. Nessa velocidade, o Slammer pôde infectar 90% dos servidores desprotegidos conectados à Internet em apenas 10 minutos. O recente worm MyDoom infectou sistemas de e-mail no mundo todo – em seu período de pico, 1 em cada 12 e-mails enviados pela Internet carregava o MyDoom.

Uma vez que as novas ameaças se propagam rápido demais para serem detidas por qualquer mecanismo de resposta de segurança, e que ameaças futuras serão tão rápidas que farão o veloz worm Slammer parecer lento, fica óbvia a urgência com que as empresas atuais devem procurar novos modos de se protegerem. Que mecanismos de prevenção de ataques elas poderiam adotar?

Quatro estratégias promissoras
Vamos agora analisar quatro estratégias que podem permitir que empresas impeçam que ameaças maliciosas penetrem em suas redes.

  • Bloqueio de comportamento. O objetivo dessa estratégia é monitorar comportamentos de aplicativos em execução em tempo real, e bloquear atividades de programas aparentemente maliciosas. Pense nessa analogia com o mundo real: como as drogas combatem os vírus no corpo humano? Em geral, os vírus infectam as células humanas localizando um ponto na célula com uma determinada forma e “ancorando” naquele ponto para injetar os genes virais. Tal “ponto de âncora” pode ser visto como uma peça de quebra-cabeça, para a qual o vírus tem a peça que nela se encaixa. Uma vez encaixado o vírus, a célula se abre e o vírus injeta a si próprio. Atualmente, os medicamentos antivirais avançados funcionam bloqueando o ponto de âncora na célula ou no vírus, a fim de impedir que ele se encaixe na célula e injete seus genes. Com a tecnologia de bloqueio de comportamento, o mesmo raciocínio é aplicado aos vírus de computador e worms. Nesse caso, APIs de sistemas fundamentais são bloqueadas, do mesmo modo que são bloqueados os pontos de âncora necessários aos vírus para se espalhar e sobreviver. Sem essas APIs, o ciclo de vida do worm é interrompido. Observe que ainda há desafios associados a essa tecnologia. Assim como as drogas antivirais podem prejudicar o funcionamento do corpo devido aos seus efeitos colaterais, o bloqueio de comportamento pode fazer com que computadores não funcionem corretamente ao identificar erroneamente comportamentos de programas legítimos (os chamados falsos positivos). Essa área ainda requer a realização de muita pesquisa.
  • Proteção contra anomalias de protocolo. Essa estratégia tenta impedir a ameaça antes mesmo que ela alcance qualquer computador e cause danos. Muitos ataques têm como alvo protocolos como o Telnet, HTTP, RPC e SMTP. Certos erros de programação (como o estouro do buffer) são usados por agressores para comprometer ou causar danos a um sistema. Esses ataques exploram erros de programação e são bastante comuns. O conceito por trás da proteção de anomalias de protocolo é interceptar todas as comunicações em rede - no perímetro (o firewall corporativo), nos hosts e até mesmo na infra-estrutura do roteador/comutador - e assegurar que os dados transmitidos pelos dispositivos obedecem aos protocolos padrão da Internet. Vários worms enviam intencionalmente dados inválidos (fora das especificações) a fim de criar uma brecha (vulnerabilidade) específica no computador de destino. Se essas comunicações “fora das especificações” forem anuladas antes de chegarem ao computador de destino, o worm terá sido detido. Embora a proteção contra anomalias de protocolo já exista em produtos de segurança atuais, ainda há obstáculos fundamentais a serem ultrapassados. Em primeiro lugar, há milhares de protocolos da Internet a serem filtrados. Controlar todos eles seria uma tarefa hercúlea. Em segundo lugar, realizar a “inspeção detalhada de conteúdo” necessária à proteção contra anomalias de protocolo resultaria em um custo computacional muito alto. Abordagens de alta velocidade devem ser estudadas para assegurar que o tráfego de rede corresponda aos padrões e taxas de transferência de multigigabits exigidos pelos clientes.
  • Limitação de conexões. A idéia por trás dessa técnica, desenvolvida por pesquisadores da Hewlett-Packard, é “sacrificar” um pequeno número de computadores em nome do bem-estar de toda a rede. Na prática, a maioria dos computadores interage regularmente com um grupo pequeno de computadores (por exemplo, o servidor de e-mail, alguns servidores da Web, o servidor DNS). Além disso, a maior parte dos computadores não estabelece várias conexões freqüentes a computadores completamente novos – menos de uma conexão por segundo, na maioria dos casos. Sendo assim, os pesquisadores da HP desenvolveram um sistema de regulagem que automaticamente limita a uma por segundo o número de conexões a novos computadores. Todas as conexões a computadores que já fazem parte do grupo de computadores regularmente usados são imediatamente estabelecidas, porém as conexões a novos computadores são limitadas de acordo com uma determinada taxa. As ameaças como o Nimda, Code Red e Blaster geralmente escolhiam endereços de rede aleatórios, e iniciavam milhares de novas conexões a novos computadores – um comportamento totalmente fora do normal. A tecnologia da HP limitaria de modo significativo a expansão desses tipos de ameaças. O Nimda estabeleceu entre 300 e 400 conexões por segundo. De forma similar, o Blaster podia enviar 850 pacotes por segundos. Se a taxa de conexão estivesse limitada, essas ameaças não teriam sido capazes de enviar mais do que um pacote por segundo, o que reduziria dramaticamente, ou até impediria, a sua propagação. Embora essa técnica seja promissora, há muita pesquisa a ser feita nessa área. Um de seus problemas é ser eficaz apenas contra determinados tipos de worms. Por exemplo, worms de e-mail não são contidos por esse método. Uma vez que worms de e-mail não estabelecem novas conexões diretas a outros computadores para enviar e-mails, eles passam impunes. Portanto, são capazes de enviar e-mails em massa ao servidor de e-mail (que está no grupo de computadores sem limitação). Outro problema é que alguns dos protocolos amplamente usados em geral exigem que o computador se comunique com diversos computadores. Aplicar o esquema de limitação da taxa a esses protocolos iria certamente tornar esse computador lento.
  • Bloqueio geral de explorações. Esse método tenta proteger uma nova vulnerabilidade contra todo e qualquer ataque futuro. Pense nele como um cadeado. Cada cadeado tem um conjunto interno de pinos que determina o formato da chave que poderá abri-lo. Se examinarmos esse conjunto de pinos em um cadeado, podemos identificar o formato da chave capaz de abrir esse cadeado. E isso pode ser feito sem que nem mesmo vejamos a chave real que abrirá o cadeado. Em seguida, podemos usar o "formato" do cadeado para bloquear qualquer tentativa de abri-lo, independentemente do formato real da chave. Do mesmo modo, sempre que uma nova vulnerabilidade fosse anunciada, os pesquisadores poderiam identificar o “formato” daquela vulnerabilidade. Em outras palavras, eles poderiam descrever o fluxo de dados específico que deve ser enviado pela rede ao computador vulnerável para tentar explorar sua vulnerabilidade. Uma vez determinados esses dados, seria possível produzir uma assinatura capaz de detectar e bloquear qualquer ataque (por exemplo, um worm) que apresente esse "formato" identificado. O bloqueio geral de explorações é também chamado de “correção genérica”, já que a tecnologia proporciona a proteção contra novas vulnerabilidades sem exigir que os usuários instalem imediatamente uma correção de software. Um dos desafios do bloqueio geral de explorações é que, ao contrário do formato simples determinado por pinos em um cadeado, algumas vulnerabilidade têm um “formato” extremamente complexo. Seria muito difícil tentar distribuir assinaturas a altas velocidades de dados sem causar lentidão na rede.

Um cenário em constante alteração
Outra descoberta do Relatório de Ameaças à Segurança na Internet enfatiza a necessidade de tecnologias como as descritas acima: infra-estruturas e negócios que lidam com recursos financeiros significativos têm sido vítimas de severos ataques em massa. Na verdade, os setores de serviços financeiros, organizações de saúde e companhias de energia e eletricidade estavam entre os mais atingidos por eventos graves em 2003.

Observe o caso dos fornecedores de energia elétrica. Atualmente, a maioria das companhias de energia elétrica nos Estados Unidos conduz seus negócios usando a estrutura fornecida pela Internet. Isso significa que elas estão usando a Internet ou computadores conectados à Internet para negociar energia elétrica, e qualquer um desses computadores corre o risco de ser atingido por uma nova ameaça que se espalhe rapidamente. Além disso, as principais operadoras de telecomunicações estão disponibilizando cada vez mais serviços via Internet. Em dezembro de 2003, a AT&T, Qwest Communications e Time Warner Cable anunciaram planos de implantar uma tecnologia de voz sobre IP (VoIP). Contudo, bastaria um único worm que causasse um tráfego moderado na rede para devastar um serviço de telefonia tradicional que dependesse da Internet.

Como a Internet continua a controlar aspectos chave de nossas vidas diárias, é essencial que as empresas explorem estratégias como as descritas acima a fim de proteger a rede global e a si mesmas. Somente uma abordagem como essa poderá garantir a segurança da próxima geração de computação via Internet.

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